Antonio Donato: Um governo sem rumo

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Em 6 de abril, João Doria renunciou ao cargo de prefeito de São Paulo, dando lugar ao vice. O PSDB repetiu a operação Serra que, com pouco mais de um ano da posse, abandonou em 2006 a Prefeitura para se candidatar ao governo do Estado. Nos dois casos, reiteradas negativas de renúncia se revelaram simples trapaça à sociedade paulistana.

Bruno Covas completa cem dias de governo, e Doria se ocupa da campanha a governador, sem perder a esperança de ser a alternativa presidencial do “centro” em 2018.

Para isso, ambos trabalham em conjunto, com a entrega de secretarias e empresas municipais. Nas últimas mudanças, conseguiu tirar o apoio do PP a Márcio França, com a entrega da Cohab, e angariou o apoio do PRB a Doria por meio da Secretaria de Esportes.

O esforço eleitoral da dupla deixou pouco espaço para tratar dos problemas da cidade. O argumento da falta de recursos segue falacioso: a arrecadação soma ganhos reais de quase 6%, e o caixa da Prefeitura apresenta recorde histórico, perto dos R$ 10 bilhões, indicando inoperância na execução de programas e investimentos.

Covas mantém a desconstrução de políticas voltadas à periferia. Obras e ampliação de atendimento nos hospitais de Parelheiros e Brasilândia ainda não foram entregues. Construção de escolas e CEUs segue parada, e a fila de vagas em creche está em quase 60 mil, em contraste com a promessa de campanha de zerá-la em um ano, meta revista duas vezes.

Mais intrigante é o destino das “vitrines” do mandato: o Cidade Linda e o programa de desestatização. Nada ocorreu, revelando o caráter midiático e publicitário. Quando prefeitos se dedicam a outras prioridades, tornam-se secundários os atos de administrar, ouvir o povo e fixar prioridades para gasto social e urbano.

A zeladoria se resumiu à continuidade do programa de recapeamento iniciado em 2017. Em sete meses, foram consumidos R$ 172 milhões em asfalto. Em contraste, do Cidade Linda nem sequer se fala, pois desmanchou como maquiagem: falhas de limpeza e varrição e de conservação de praças e parques continuam.

As privatizações e parcerias não passam, até aqui, de falatório. Covas também tentou vender a cidade em viagens a Londres e Nova York. Nada saiu do papel. O programa serviu só para construir a imagem “pró-mercado” e “eficiência” de Doria para seu voo eleitoral. Diga-se, uma prova de que é possível combinar ineficiência e liberalismo econômico.

Covas, em memória do avô, poderia priorizar ações voltadas à periferia e à população em situação de vulnerabilidade social. Mas o mapa de projetos parados ou que sofreram cortes segue inalterado, embora a situação orçamentária seja melhor do que a dos últimos três anos.

São Paulo tem um governo sem rumo, em que nada acontece. Covas não tomou nenhuma iniciativa e mantém o que havia de pior na gestão do antecessor: a reversão dos programas de combate à desigualdade e exclusão social.

É um prefeito invisível, que parece um apêndice de Doria em seu projeto de poder, às expensas da cidade. Além disso, foi anunciado como reforço da campanha de Alckmin. Está mais ocupado com a disputa eleitoral do que com as tarefas do cargo.

Antonio Donato

Vereador e líder da bancada do PT na Câmara Municipal de São Paulo; ex-secretário municipal de Governo (2013, gestão Haddad)

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