El Niño acende alerta para São Paulo e expõe desigualdade climática na cidade

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Fenômeno natural deve influenciar os próximos meses e pode intensificar extremos de temperatura e chuva. Bancada do Partido dos Trabalhadores alerta que os impactos não atingem todos os paulistanos da mesma forma e cobra medidas preventivas da Prefeitura.

Não é mais uma possibilidade distante. O El Niño de 2026 já foi confirmado por órgãos meteorológicos e os modelos indicam que o fenômeno deve persistir nos próximos meses, com possibilidade de atingir forte intensidade.

Os números do monitoramento oficial dão a dimensão do cenário. No início de julho, o Centro de Previsão Climática (CPC) da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration, ou Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, dos Estados Unidos) indicou a manutenção das condições de El Niño pelo menos até o trimestre de dezembro de 2026 a fevereiro de 2027. Para o trimestre de agosto a outubro, a projeção aponta 42% de chance de o evento se configurar como forte e 48% como muito forte.

No Brasil, o acompanhamento é feito pelo Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e pela Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme). Nota técnica conjunta dessas instituições trabalha com probabilidade superior a 90% de o fenômeno permanecer ativo até o início de 2027.

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O fenômeno é natural e acontece há milhares de anos. Ele ocorre quando há um aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial, alterando a circulação atmosférica e influenciando o regime de chuvas e temperaturas em diferentes regiões do planeta.

O problema é que esse fenômeno chega agora em um cenário diferente. O planeta está mais quente, e as cidades acumulam escolhas feitas ao longo de décadas que aumentam ou reduzem os impactos dos eventos extremos. O El Niño não foi criado pela ação humana, mas seus efeitos acontecem hoje em um ambiente climático mais vulnerável.

Em São Paulo, isso significa enfrentar riscos dos dois lados: períodos de calor mais intenso, com baixa umidade e maior possibilidade de incêndios em áreas de vegetação, e chuvas concentradas em poucas horas, aumentando a chance de alagamentos, deslizamentos e quedas de árvores.

“O aumento dos índices de desmatamento, consumo de combustíveis fósseis, queima de carvão, aumento de áreas para pastagens, atividades ilegais de mineração e aumento de ilhas de calor em cidades contribuem para ocorrência de alterações climáticas que intensificam fenômenos climáticos naturais como o El Niño”, explica Fernando Vecchia, assessor técnico da liderança do Partido dos Trabalhadores na Câmara Municipal de São Paulo.

Ao longo das décadas, São Paulo foi construída de uma forma que amplia esses extremos. A impermeabilização excessiva do solo reduz a capacidade de absorção da água e transforma chuvas intensas em enxurradas. A redução da cobertura vegetal aumenta as ilhas de calor e diminui a capacidade da cidade de enfrentar temperaturas elevadas. A ocupação de áreas de risco deixa milhares de famílias mais expostas quando os eventos extremos acontecem.

“A excessiva impermeabilização do solo urbano, a verticalização das construções, o transporte individual movido a combustível fóssil e o baixo índice de áreas verdes na cidade colaboram com a ocorrência de alterações climáticas que já causam mortes e destruição”, afirma Vecchia.

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O calor tem CEP

A vulnerabilidade climática não é distribuída igualmente pela cidade. Estudos sobre a cobertura arbórea de São Paulo mostram que a presença de vegetação acompanha, em grande medida, a desigualdade urbana: bairros com maior renda concentram mais árvores e áreas verdes, enquanto regiões periféricas convivem com mais concreto, menos sombra e maior exposição ao calor.

O Mapa da Desigualdade, levantamento da Rede Nossa São Paulo e do Instituto Cidades Sustentáveis, coloca números nessa diferença. No indicador de arborização viária, Alto de Pinheiros aparece com 1.804,2 árvores por quilômetro quadrado, seguido por Jardim Paulista (1.573,4) e Pinheiros (1.562,8). Na outra ponta estão Marsilac (3,2), Parelheiros (31,5) e Grajaú (109,2). A distância entre o primeiro e o último distrito é de 557 vezes.

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Vale registrar que distritos como Marsilac e Parelheiros abrigam grandes áreas de proteção ambiental, mas isso não se converte em sombra dentro dos bairros. O verde está nas bordas; as ruas onde as pessoas moram, andam e esperam ônibus seguem sem cobertura.

No conjunto da cidade, apenas 11,7% das ruas paulistanas são arborizadas. Em Curitiba, o índice chega a 76,1%; em Porto Alegre, a 82,7%.

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Não é um cenário hipotético. A estação do INMET no Mirante de Santana, que mantém série histórica desde 1943, registrou o recorde absoluto da capital em 17 de outubro de 2014, com 37,8°C. A segunda maior marca é recente: 37,7°C, em novembro de 2023. Boa parte das temperaturas mais altas já medidas na cidade se concentra na última década.

Quando a chuva chega, a lógica se repete

Quem vive próximo a córregos, encostas ou áreas sujeitas a alagamentos é quem primeiro sente os impactos da falta de planejamento urbano.

Levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), identificou 8,27 milhões de brasileiros vivendo em áreas de risco em 872 municípios monitorados. São Paulo é a segunda cidade do país em contingente absoluto, com cerca de 674 mil moradores nessas condições — o equivalente a 6% da população da capital.

O mesmo estudo aponta que 26,1% da população que vive em áreas de risco no Brasil não tem esgotamento sanitário adequado, fator que satura o solo e agrava o risco de deslizamento quando a chuva concentrada chega.

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E o problema não parou de crescer. Segundo o Informe Urbano nº 56, produzido pela própria Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento, entre 2010 e 2022 a área classificada como de risco geológico na cidade aumentou 18%. Nos setores de risco alto (R3) e muito alto (R4), aqueles em que a ocorrência de eventos destrutivos durante chuvas intensas é considerada provável ou muito provável, a área cresceu 12%, mas o número de moradias cresceu 65%.

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Ou seja: mais gente vivendo nos mesmos lugares perigosos. O mapeamento municipal mais recente contabiliza 495 áreas de risco e 1.325 setores na cidade, dos quais 561 são de risco alto ou muito alto.

Esses números mostram que a exclusão habitacional avança mais rápido do que a política de moradia. Cada família empurrada para uma encosta ou para a margem de um córrego é uma tragédia estatística à espera de uma chuva forte.

Prevenção não é obra de emergência

Por isso, a bancada de vereadores do PT defende que a Prefeitura adote medidas preventivas antes que os eventos extremos aconteçam. Entre as ações estão o manejo adequado da arborização urbana, a limpeza permanente de córregos, galerias e bocas de lobo, o fortalecimento da Defesa Civil nas áreas de risco e a criação de protocolos específicos para períodos de calor intenso, com atenção especial à população em situação de rua, escolas e unidades de saúde.

Mas a prevenção não pode se limitar a ações emergenciais. O enfrentamento da crise climática exige mudanças estruturais: ampliar áreas verdes, recuperar rios e córregos, melhorar a drenagem urbana e garantir moradia digna para famílias que hoje vivem em locais sujeitos a enchentes e deslizamentos.

E aqui aparece o ponto central: falta execução, e o orçamento está encolhendo justamente quando o alerta climático aumenta.

Em 2025, a Prefeitura tinha R$ 822 milhões autorizados para ações de combate a enchentes. Até dezembro, segundo dados apresentados em representação protocolada no Tribunal de Contas do Município de São Paulo (TCM-SP), apenas cerca de 60% haviam sido executados. Para 2026, a proposta orçamentária enviada pelo Executivo à Câmara prevê R$ 662 milhões — valor inferior ao autorizado no ano anterior.

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Não é falta de diagnóstico. Os Cadernos de Drenagem, elaborados pela Fundação Centro Tecnológico de Hidráulica (FCTH) em parceria com a Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras (Siurb), já apontam há anos quais bacias precisam de reservatórios, ampliação de galerias e obras de contenção. O caderno da bacia do Córrego Mandaqui, na Zona Norte, foi publicado em 2016 e indicava a necessidade de piscinões de amortecimento. A região segue alagando.

São Paulo precisa deixar de agir apenas depois que os problemas aparecem e passar a se preparar antes que eles aconteçam.

“A bancada de vereadores do PT trabalha no sentido de apresentar propostas para intensificar estas ações, aprimorando a legislação municipal, propondo novos parques e áreas verdes e agindo para o aumento da oferta de moradia para população em áreas de risco, preservando encostas e margens de rios e córregos, diminuindo assim o impacto causado ao meio ambiente”, afirma Vecchia.

Fotos: Marcos Santos/USP Imagens e Paulo Pinto/Agência Brasil (via fotospublicas.com)

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