Das 684 obras em andamento na cidade, 640 não cumprem o cronograma. Valor dos contratos chega a R$ 8 bilhões, com forte concentração em unidades de educação.
São Paulo tem 684 obras públicas em andamento e 640 delas estão atrasadas, segundo levantamento da Bancada do PT na Câmara Municipal de São Paulo (CMSP). O número corresponde a 94% dos contratos em execução pela Prefeitura, que somam R$ 10,64 bilhões. Do total, R$ 8,06 bilhões estão vinculados a obras que, na data da consulta, não cumpriam o cronograma previsto. O levantamento mostra ainda que os atrasos estão espalhados por diferentes tipos de contratos e atingem principalmente obras de manutenção e unidades da rede municipal de Educação.
O volume de contratos fora do prazo também coloca em discussão a capacidade de planejamento, execução e fiscalização das obras municipais. Presidente da Comissão de Finanças e Orçamento da Câmara, o vereador João Ananias (PT) avalia que a dimensão dos atrasos exige olhar não apenas para cada obra individualmente, mas para o funcionamento da própria gestão orçamentária da Prefeitura.



“Quando 94% das obras em andamento estão atrasadas, não estamos diante de problemas pontuais. É preciso olhar para o planejamento, para a execução orçamentária, para a fiscalização dos contratos e para a capacidade de cada secretaria de cumprir aquilo que foi previsto. O orçamento público não termina quando o recurso é empenhado ou quando o contrato é assinado. É preciso garantir que a obra seja executada, fiscalizada e entregue à população dentro do prazo e com qualidade”, afirmou Ananias.
Os dados constam do Informativo de Finanças e Orçamento nº 61/2026, elaborado pela assessoria coletiva da Liderança do PT na CMSP, com base em informações disponíveis no Portal Obras Abertas. A consulta foi realizada em 3 de agosto de 2026 e mostra que os atrasos não estão concentrados em poucos contratos ou em situações pontuais. Das 640 obras fora do prazo, 264 acumulavam entre dois e seis meses de atraso, enquanto outras 307 estavam atrasadas entre seis meses e um ano. Havia ainda 29 obras com atraso entre um e dois anos e uma cujo prazo já havia sido ultrapassado por mais de dois anos. Ao todo, 337 obras já acumulavam pelo menos seis meses fora do cronograma.

Ananias também defendeu que o acompanhamento das obras seja tratado como parte da fiscalização permanente do orçamento municipal. “Não basta a Prefeitura anunciar uma obra, reservar o recurso e assinar o contrato. A Câmara precisa acompanhar a execução física e financeira, verificar o cumprimento dos prazos e cobrar explicações quando aquilo que foi planejado não acontece. Quando o atraso vira regra, como mostram esses números, é preciso discutir a gestão como um todo e não apenas procurar justificativas para cada contrato individualmente”, afirmou.
A situação é ainda mais acentuada entre as obras classificadas como manutenção. Das 534 obras nessa categoria, 529 estavam atrasadas, o equivalente a 99% do total, em contratos que somavam R$ 4,17 bilhões. Dentro desse grupo, a Educação concentra a maior parte dos contratos. São 531 obras de manutenção em unidades educacionais, com R$ 4,19 bilhões em contratos, das quais 526 estavam atrasadas, novamente um índice de 99%. Os números mostram que o problema não está restrito a uma área específica da rede municipal, mas alcança diferentes tipos de equipamentos.

Nas EMEFs, 172 das 173 obras estavam atrasadas. Entre as EMEIs, eram 162 atrasadas de um total de 166. Nos Centros de Educação Infantil (CEIs), todas as 160 obras registradas estavam fora do prazo. O mesmo ocorria com os 17 CEUs, os quatro CEMEIs, os quatro CIEJAs e as três EMEBS incluídas no levantamento. A recorrência dos atrasos em praticamente todas as categorias de equipamentos educacionais reforça a dimensão do problema na execução dos contratos de manutenção da rede.
O atraso também aparece nas obras novas. Das 13 obras dessa categoria registradas no Portal Obras Abertas, todas estavam fora do prazo, em contratos que somavam R$ 162,16 milhões. Os empreendimentos eram destinados a unidades de Educação: nove CEIs, três EMEIs e uma EMEF. Na categoria de requalificação, havia ainda uma obra registrada no levantamento, também em unidade educacional, e ela igualmente estava atrasada.

Os números também ajudam a dimensionar há quanto tempo os contratos estão fora do cronograma. Das 640 obras atrasadas, 307 já haviam ultrapassado o prazo entre seis meses e um ano. Outras 29 estavam atrasadas entre um e dois anos, enquanto uma obra tinha mais de dois anos de atraso. Isso significa que 337 contratos já acumulavam pelo menos seis meses de descumprimento do cronograma previsto, indicando que uma parcela significativa dos atrasos não corresponde a situações recentes.
O levantamento da Liderança não aponta individualmente as causas de cada atraso nem atribui responsabilidade por cada contrato. O documento consolida as informações disponíveis no Portal Obras Abertas e apresenta um retrato da situação encontrada em 3 de agosto. Naquele momento, apenas 44 das 684 obras em andamento apareciam dentro do cronograma, enquanto 640 estavam atrasadas.
O vereador também destacou que o problema precisa ser analisado a partir do impacto da execução orçamentária sobre a população. “Estamos falando de bilhões de reais em contratos que deveriam se transformar em escolas, equipamentos públicos e serviços entregues à população. Quando uma obra atrasa, não é apenas uma data que deixa de ser cumprida. É um recurso público que permanece sem produzir o resultado esperado e uma necessidade da população que continua sem resposta”, afirmou Ananias.
A concentração dos atrasos nas obras de Educação chama atenção pelo volume de recursos envolvidos e pelo impacto sobre equipamentos utilizados diariamente pela população. Considerando todas as áreas, os R$ 8,06 bilhões vinculados às obras atrasadas representam cerca de 76% do valor total dos contratos em andamento incluídos no levantamento. Entre as obras de manutenção, o percentual de contratos atrasados chega a 99%.

O retrato apresentado pelo Informativo 61/2026 mostra, portanto, um problema que vai além de casos isolados de obras que ultrapassaram o prazo. Na data da consulta, 94% dos empreendimentos em andamento estavam atrasados, mais da metade deles já havia ultrapassado o cronograma em pelo menos seis meses e a Educação concentrava parte significativa dos contratos nessa situação.
Fotos: Lucas Bassi/Camara Municipal de SP e Renato Pinheiro/SECOM-PMSP





